O bueiro (ou ativismo de sofá) 

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Perto de sua casa havia um bueiro. Que raiva tinha daquele bueiro! Frequentemente entupido, ao fitá-lo, tinha-o como a representação do que era feito com seus impostos e sentia seu esforço para maximizar sua riqueza, em parte, escoando pelo ralo.

Sua raiva era tamanha que frequentemente pensava estar sofrendo um infarto.

– Matilda, Matilda! Socorro! Estou morrendo, Matilda!

E lá corria Matilda, com um copo de água e uma pílula de papel do Frei Galvão, pra acalmar o homem.

Com certa constância, Matilda tentava entretê-lo na hora do Jornal Nacional, para que não desse qualquer chilique, em virtude da corrupção do Congresso ou dos desmandos que ele pensava serem as resoluções presidenciais.

Aos domingos, ele ia ao botequim da esquina. Matilda agradecia por, ao menos um dia, não ser ela a ter de aguentar as críticas à política, ao governo e até ao síndico do condomínio. Ela já sabia onde as conversas iriam parar. Era sempre a mesma coisa!

– É um absurdo, Zé! O que fazem com o nosso dinheiro! Até aquele síndico é ladrão! Nesse país só tem ladrão! Aposto que aquele cara que é presidente da Associação de Pais e Mestres também tá desviando dinheiro. É só o que fazem. Roubam e roubam e roubam, enquanto a gente trabalha e trabalha e trabalha.

– Desce outra gelada aí, Seu Geraldo!

E tudo começava novamente à segunda-feira. Já de manhã, saia ao trabalho, olhava o bueiro, reclamava do salário, das contas a pagar e dos impostos. À noite, Matilda tentava entretê-lo na hora do jornal, normalmente sem sucesso, e vez ou outra ele tomava um comprimido do Frei Galvão, por estar tendo mais um ataque de raiva. Raiva desinformada, raiva midiática, oriunda de seu ativismo de sofá.

Naquele sábado, às 9h, em frente à portaria principal, dar-se-ia a reunião mensal de condomínio, de que nunca participava. Como também era usual, Matilda acordou cedo, tomou banho, arrumou o café. Todavia, ela houvera decidido fazer algo diferente, acordou-o e o convidou a comparecer à reunião a que nunca iam.

– Mas que ideia absurda é essa, mulher? Vir me acordar a essa hora em pleno sábado para essa reunião chata? Tem mais o que fazer não é?

– Sabe o que é, Tião? Eu queria ver a prestação de contas do síndico. Eu não acho que o Seu Felício rouba não, igual você vive dizendo aos quatro cantos. Eu tenho sentido até vergonha de encontrá-lo por aí, em razão das coisas que você anda dizendo. Achei que seria uma boa a gente ir lá e conferir como é que o homem anda gastando nosso dinheiro.

– Pois vá você sozinha! Eu mesmo é que não vou! Ora…

Matilda não era lá de fazer nada sozinha, mas estava de veras encafifada com a história de o Seu Felício ser ladrão. Enquanto o papo do Tião se referia aos deputados e ao presidente, à corrupção e aos desvios de verba, enfim, a essa coisa toda de política de que ela não entende, tudo bem. Mas Tião estava falando por aí que Seu Felício, vizinho de tanto tempo, estava roubando o dinheiro do condomínio.

Ah! Disso ela entendia, do condomínio. Vivia ali quietinha, coitada! Quase nem opinava sobre nada, mas percebia quando as flores do jardim estavam bem cuidadas, viu quando individualizaram o sistema de hidrômetros, gostou quando fizeram a hortinha comunitária, da qual ajudava a cuidar, e empreendeu esforços para se adaptar ao novo sistema de coleta seletiva.

Na reunião do condomínio, ouviu Seu Felício informando os poucos presentes sobre o que fora feito de cada centavo pago a título de taxa condominial e sobre as melhorias implementadas em sua gestão.

Além disso, seu Felício pedira a todos os participantes para se manifestarem quanto ao que julgavam pertinente mudar, em que entendiam necessário investir daqui pra frente e sobre inúmeras outras pautas. Naquela ocasião, começou a perceber que sempre havia votações para decidir o que seria melhor para todos os que ali viviam, e que Seu Felício não fazia nada sozinho.

No finzinho da assembleia, Seu Felício a interpelou:

– Dona Matilda! Que bom que a Senhora veio! Seu marido não quis vir também não? É tão importante a presença de vocês!

– Sabe o que é, Seu Felício, ele trabalha demais. Tá tão cansado o coitado!

– Entendo. Toma um cafezinho com bolo! Minha esposa é quem fez. Delícia de Minas. Custou nada pro condomínio, não. Cortesia da casa!

– Hum! Delícia mesmo! Quero a receita.

– Pode deixar. A propósito, estamos com um problema com o bueiro aí ao lado. A prefeitura constantemente tem vindo desentupi-lo, porém, como as pessoas continuam jogando lixo nas ruas, ele volta a entupir. A prefeitura está montando um grupo de trabalho para conscientização acerca da importância de dar destinação adequada aos resíduos sólidos. Não gostaria de participar? Eu vejo que a senhora fica tanto tempo sozinha… minha esposa e minha filha também vão!

– Por que não, né? Acho que o Tião não vai se importar.

Ao voltar pra casa, Tião já havia tomado o café e já estava em frente à TV.

– Tião, a reunião foi tão interessante! Tivemos prestação de contas e… e o Seu Felício não é ladrão não! Teve votação, decidimos o que fazer com o dinheiro e… e o bueiro! Sabe o bueiro, Tião?

– Que bueiro, mulher?! Dá licença que eu tô assistindo meu programa de esporte. Quero lá saber de bueiro nada!

Matilda respirou fundo, deixou Tião quietinho vendo as notícias do futebol, mas não permitiu que a grosseria a desanimasse.

Na semana, foi à reunião do GT Resíduos Sólidos. O grupo foi recebido pela Secretária de Limpeza Urbana. E como Matilda se sentira importante. Uma simples dona de casa ser recebida por uma Secretária da prefeitura, imagina a honra! Ela sorria de ponta-a-ponta.

Prestou atenção ao projeto. Anotou cada passo da explanação. Fez muitas perguntas, pois queria saber exatamente qual seria sua missão na empreitada. Que legal ter uma missão! Estava tão motivada! Sentia-se útil, sentia-se parte. Ela, que sempre ouvira de Tião que é o dinheiro dele que torna possível tanta coisa (escola, hospital, bueiro…) e que é tão mal-usado o dinheiro dele, tinha pela primeira vez a oportunidade de contribuir.

Contribuir com a sociedade, com quem pensava não colaborar, já que não tinha um trabalho remunerado e, assim sendo, em sua cabeça, não pagava impostos (ela também não entendia nada sobre arrecadação fiscal); mas, principalmente, oportunidade de contribuir com Tião, já que ativamente poderia fazer com que o dinheiro dele fosse melhor utilizado.

E Matilda saiu em campanha.

Passeando num sábado à tarde:

– Não joga lixo no chão, Tião! Vai entupir o bueiro!

– Como?

– É, vai entupir o bueiro! Você já viu quantas vezes a prefeitura tem de vir aqui desentupir esse bueiro? Já pensou em quanto é preciso gastar a cada vez que o bueiro entope? É o motorista do caminhão, o funcionário da zeladoria, a gasolina… isso quando não tem que trocar o cano. Para de jogar lixo no chão!

Tião ficou em silêncio, franzindo a testa. Nunca houvera lhe ocorrido pensar em nenhuma daquelas questões. Nunca nem mesmo tinha se dado conta de que contribuía para um problema de que tanto reclamava. Mas o que lhe assustou mesmo foi ver sua mulher, que não sabe muito sobre quase nada, lhe repreender daquela maneira.

Naquele dia, passou a olhar Matilda de um jeito diferente. Queria saber mais sobre a pessoa com quem estava casado há anos e que, até aquele dia, nunca ousara questionar qualquer um de seus posicionamentos, mas teve medo de perguntar.

À noite, quando ele abriu a boca pra falar mal da presidência, Matilda já cansada soltou:

– Olha, esse problema da presidência é muito complicado pra eu resolver. Não vejo como posso contribuir para que essa situação melhore, mas sei que precisamos de muita ajuda aqui no condomínio e lá na prefeitura, para que o nosso bairro se torne um lugar melhor pra gente viver. Talvez, se em vez de ficar aí sentado no sofá, reclamando do que a gente não pode mudar, você levantar e for comigo à prestação de contas do pessoal lá da prefeitura, a gente consiga dar uma destinação melhor ao seu dinheiro. Eu sei que a escola do Pedrinho vai passar por reforma, porque a gente foi lá reclamar no orçamento participativo. E também sei que vai chegar mais remédio no postinho de saúde, mas eu realmente não sei o que fazer com essa tal de Petrobrás, nem com essa coisa de propina. Então, por favor, pare de reclamar sobre isso pra mim!

Tião emudeceu de vez. Acometeu-lhe um súbito e inédito pensamento que lhe impunha cogitar que seu ativismo de sofá não contribuía em nada para coisa alguma.

Um comentário sobre “O bueiro (ou ativismo de sofá) 

  1. Bem… na verdade o ativismo de sofá do Tião serviu para despertar na sua esposa uma maneira de fazer a diferença e se envolver nas soluções dos problemas!
    Acho que é isso que vale sempre, as atitudes que são estimuladas, mesmo que despretensiosamente e que fazem a diferença, que mudam aquilo que já não se pode mais aguentar.
    —–
    Agora… queria muito que isso estivesse na plataforma Medium! Que tal??
    beijooooo

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