A história de Mary e Junk

 

Dizem que todo mundo tem medo do escuro, de altura, da pobreza, da velhice ou da solidão.

A solidão talvez fosse sua maior preocupação. Encontrar um grande amor para ser feliz para sempre, para passar o resto da vida. E ela ia, de abraço em abraço, esperando encontrar em qualquer esquina o seu final feliz.

Possivelmente era desse medo que derivavam seus maiores defeitos, a carência absurda de afeto, a necessidade de chamar a atenção e o pânico de não ser a mais bela e de não ser a ela destinado o príncipe encantado.

Rejeição, tamanha dor! E também alimento para o medo primordial. A cada nova, aumentavam o desespero e a ânsia de encontrar.

Critérios? Nenhum! Embora às vezes rejeitasse alguns pretendentes instintivamente.

Ricos, pobres, honestos, transgressores, bonitos, feios, homens, mulheres… Não admitia a possibilidade de deixar passar a chance de encontrar sua alma-gêmea. E se passassem despercebidos e desapercebidos? Não podia permitir.

Sem perceber, cavava sua própria cova. Quanto maior o fracasso amoroso, menos se valorizava e mais fundo descia em seu próprio poço. Permitia-se deitar com uns e outros em troca de algumas migalhas de autoestima, que era justamente o que adquiria ao ouvir um “como você é linda”! Não compreendia que, ao fim, sua autoestima estava ainda mais fragmentada que inicialmente.

Não sabia ouvir a si mesma. Sua alma gritava: “socorro! estou sendo violentada”! E ela entendia: “depressa! Corra logo para os braços de outro alguém que te possa dar um afago qualquer”.

Constantemente se sujeitava a xingamentos diversos, mas a assustou o primeiro tapa, o primeiro chute, o primeiro soco.

Estranho pensar que ainda assim decidiu ficar. Talvez o tenha feito por haver sido este, em tempos, o primeiro a não a escorraçar, depois da primeira noite, como a um cão sarnento.

De certa forma, parecia um pequeno preço a pagar por aquilo que ela tanto queria: alguém. E, de mais a mais, não se considerava merecedora de algo melhor. Já não tinha amigos e a família houvera se afastado a tempos, para não ver tamanha tragédia. Ele era agora tudo. Tudo o que ela tinha.

E para ele? Era conveniente e só. Ela arrumava a casa, fazia a janta e dava uma boa foda. Pra completar, suportava quieta seus surtos de violência, normalmente decorrentes do uso abusivo de álcool.

E era isso o que esperava para até que a morte os separasse.

Todavia, por coincidência, destino, milagre, dharma ou trânsito astrológico favorável – vá saber! – uma vizinha precisava de uma mãozinha em seu restaurante e lhe ofereceu um trabalho.

A queria como hostess, uma espécie de recepcionista mais embelezada. Havia pensado nela justamente pela beleza que ela própria não enxergava.

Ele não se opôs. Não deu importância. Minimamente, a ideia até o agradou, já que seus gastos se reduziriam. Com sua benção, ela foi adiante.

Recebeu da nova patroa um vestido alinhado, muito distinto dos justos e curtos que costumava usar. Também lhe foi sugerido carregar menos na maquiagem. Efetivamente pronta, mal se reconhecia no espelho.

Muitos clientes, muitos olhares, muitos sorrisos, os quais retribuía por mera obrigação contratual, enquanto tentava olvidar a parte de si que se sentia feliz com os gracejos respeitosos (algo que lhe era inteiramente novo, porquanto distintos das péssimas cantadas outrora ouvidas).

Acostumava-se cada vez mais à nova imagem e, um dia de cada vez, sua autoestima se refazia. Com as inúmeras gorjetas, reformou o guarda-roupas. E foi comprando sapatos que teve sua epifania, ao ouvir de dentro de si:

Lembra aquele sapato vermelho? Aquele com o qual você mal conseguia andar? Lembra quando você veio aqui experimentar? Eu lembro! Ah! É tão lindo! Você pensou. Só me machuca um pouquinho!

mary-livre

E depois de 24 horas, aquele pouquinho a fez ficar descalça e fez aquele sapato lindo, perfeito, quase um Laboutin ficar uma eternidade no armário até que você tivesse coragem de doá-lo a alguém.

E daquela sandália preta você se lembra? Ah! Dessa eu tenho certeza que você se lembra! Você a comprou numa promoção. Preço mais que justo, encaixe perfeito, que felicidade! Só  mulheres podem entender!

Apenas ao chegar em casa é que você notou o lacinho torto e o defeitinho no couro. Um defeitinho aceitável, né? Não a impedia de andar e nem a obrigava a ficar descalça.

E que relação duradoura! Juntas até hoje e até que a ‘morte’ (dela, espera-se) as separe!

Com relacionamentos, é a mesma coisa, com a ressalva de que não há nenhum sapato perfeito na vitrine, todos têm defeitos, porém alguns não incomodam, alguns lhe causam calos e outros, literalmente, a impedem de andar!

Sabedoria é reconhecer quando um “sapato” lhe causa tamanha dor que se mostra mais inteligente andar descalça do que ostentar sua beleza.

Adeus, Junk!

5 comentários sobre “A história de Mary e Junk

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s