Travessia

arvore-da-vida

A vida era tranquila, embora um pouco solitária. Não era capaz de ver ou de entender o que as pessoas diziam, mas o tom suave da voz de sua mãe e as palavras delicadas de seu pai lhe soavam como uma doce melodia aos ouvidos e lhe geravam sentimentos de conforto e serenidade.

Reconhecia sentir falta de algo novo e, com o passar do tempo, veio a entender que aquele já não era o seu lugar. Isso é comum na vida! O que é apropriado para um momento não o é para o próximo. Talvez seja essa necessidade de mudança, ao mesmo tempo, uma das coisas mais prementes e difíceis de aceitar. É que nos acostumamos a estar onde estamos e, ainda que não gostemos, que o lugar já não nos caiba, que estejamos a sofrer, o desconhecido parece sempre assustador.

E era assim que se sentia, assustado e compelido a deixar a vida a qual tanto presava. Não tinha nenhuma crença a respeito de como seria uma “outra vida”, nem mesmo acerca da existência de tal coisa.

Sua única certeza era a de que realmente não queria deixar a vida que tinha. A vida na qual era suprido de tudo o que necessitava e desejava. Na qual era único e especial e tinha todo o carinho, o afeto e o aconchego de que poderia precisar. Não lhe importava o fato de que a vida tem de seguir seu fluxo, de que não se pode impedir o tempo de passar. Apenas se recusava a aceitar ter de seguir adiante, conquanto soubesse necessário.

Ele sequer entendia – sequer queria entender – que os seres estão submetidos à lei da evolução e que dela não se pode escapar. Em si, só desejo, puro desejo de que tudo estagnasse e de que pudesse apenas ficar ali, imóvel, num puro êxtase decorrente da vida plena que lhe fora dada.

Ainda hoje, é capaz de se lembrar do exato instante em que todo o seu corpo passou a ser comprimido por uma força estranha e desconhecida, que o obrigava a entrar numa espécie de corredor apertado e incômodo, do qual alguém o expulsava com fortes e sucessivos empurrões.

Antes de se deixar tomar por completo, vislumbrou uma forte luz que o impediu de ver qualquer coisa além dela. Sentiu pânico e frio. Muitas pessoas relatam haver vivido, em experiências de quase-morte, sentimentos semelhantes. E a morte era exatamente o que cria estar acontecendo. Estava deixando de existir, pensava. Estava perdendo a conexão com o Todo do qual fazia parte.

Chorou. Com todas as forças que possuía. Chorou o desespero do último segundo. Chorou a dor de o Todo a que pertencia parecer cada vez mais distante. Chorou o frio, o abandono e o medo e, quando não podia, não tinha mais forças pra chorar, ouviu diversas vozes que não podia identificar.

Não conseguia entender ao certo o que estava acontecendo, mas algo, de repente, passou a aquecê-lo. Do medo à dúvida. O que era aquilo? Que sons eram aqueles? Que luzes eram aquelas?

Pouco a pouco, começou a sentir um cheiro que lhe era familiar. Era como se o Todo, do qual tanto temeu se apartar, estivesse aos poucos se reaproximando. Ao sentir seu toque e ao sugar seu seio, soube que, fosse o que fosse que estivesse a acontecer, estava protegido e poderia contar com a força que o geriu ao longo daquela nova, inebriante e eloquente vida.

2 comentários sobre “Travessia

  1. A morte, a última barreira ao homem. A única pergunta cuja resposta é fé, apenas.
    Diante da incerteza do porvir, resta-nos a vida para esperançosamente compreende-la.
    A vida é, em seu último suspiro, o último passo para o espaço desconhecido, o último instante, quem sabe, do tempo.
    Esse momento, em que nos encontraremos diante de um abismo sem fim, de um horizonte sem luz, diante da resposta, será próximo o suficiente para compreende-la?
    Diz-se que nesses momentos toda a vida é rebobinada aos seus olhos, como uma última tentativa de explicar a morte pela vida ou como a última tentativa de se agarrar ao que é certo.
    Penso nas sensações que nos tomarão por completo, haverá algo novo?
    Algo além de tristeza ou alegria,
    Dor ou prazer,
    Resignação ou desejo,
    Fé.
    Haverá certeza?

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