A junta médica



– Tem ideações suicidas?

– Como assim ideações suicidas?

– Desejo de morrer. Você tem?

– Defina morte, por favor, Doutor.

Já ficando impaciente diante de tão despropositada pergunta, respondeu:

– Ora, você sabe o que é morte! Todo mundo sabe o que é morte! Basta olhar os jornais, os cemitérios, as ruas, as escolas, nossas famílias… A morte sempre está à espreita! Agora vamos ao que interessa para que possamos fechar seu relatório. Você tem ideações suicidas?

– O senhor vai me desculpar, Doutor, mas ainda não ficou claro para mim. Continuo não sabendo o que é morte. Quando eu era pequeno, minha mãe dizia que, quando eu morresse, iria para o céu ou para o inferno, onde permaneceria para sempre, conforme as ações que tivesse realizado em vida.

E prosseguiu:

– É claro que, quando criança, eu queria ir para o céu. Observava cada pequena ação, com medo de que fossem pesar contra mim no dia do juízo final. 

Infelizmente, minha mãe não sabia se havia animais no céu e isso me causava grande preocupação. Seria triste se não tivesse!

Anos mais tarde, uma tia minha virou espírita e me disse que não existe isso de céu e inferno. O que de fato existiria, seria um retorno quase eterno, a fim de que nos aperfeiçoássemos. A isso, ela chamava reencarnação, cujo objetivo seria a evolução dos seres. Nessa teoria, incluíam-se os animais, o que, para mim, foi uma novidade feliz.

 Quando cheguei à faculdade, entretanto, me disseram que tudo isso era uma grande mentira. Na verdade, morríamos e fim! Simples dessa maneira. Nascíamos, reproduzíamos e morríamos e bem assim ocorria com os animais.pensador

Pra ser honesto, a versão que mais me agradou foi a de um amigo, também da faculdade. Ele estava ansiosamente aguardando a chegada de 70 virgens para depois que morresse. Não que eu goste de virgens ou dê importância à virgindade, mas, já pensou? Seria maravilhoso ter 70 mulheres só pra mim! Nesse contexto, sequer me parece absurdo ter ideação suicida!

Mas o fato é, Doutor, que nenhum desses me apresentou provas suficientemente hábeis do que seja verdadeiramente a morte.  Desse modo, partindo do pressuposto de que nem ao menos sei o que seja, não posso desejar senão aquilo que penso ser.

Penso, primeiro, que, nem que seja em nível atômico, permanecemos. Pois nada se perde, nada se cria e tudo se transforma. Isso põe, de plano, fim à ideia de finitude.

Em segundo lugar, vejo a morte como um descanso das angústias dessa vida. A paz perpétua, a ausência de dúvidas, o consolo de “Deus”, do Universo, ou do nome que se queira dar a esse Todo magnifico e incompreensível em sua plenitude.

Não olvido, porém, de que minha crença não é melhor e nem mais robusta que as outras, o que implica o reconhecimento de que a morte pode não corresponder a nada daquilo em que acredito.

Seria temerário de minha parte, atender, pois, aos meus anseios de paz absoluta, correndo o risco de ir parar no locus horrendus. Não concorda, Ilustríssimo?

Consequentemente, prudente que tento ser, busco olhar objetivamente para o meu desejo de morrer e vê-lo como sendo desejo de paz, de libertação e de amor. E como busco nortear-me também pela coerência, olho para dentro de mim e procuro encontrar aquilo que me trouxe isso em vida.

 Acho que cada um deve ter algo particular que lhe traga essa sensação de plenitude. A mim o que a trouxe foi um senso de pertencimento a algo maior do que eu, que anima todas as coisas, acerca do qual pouco ou nada sei, porém que se revela na força do amor e da compaixão. Algo que posso encontrar no mais profundo e silencioso espaço íntimo.

É assim que eu sempre leio o meu desejo de morte, como sendo sede de completude. E é essa busca de conexão com o Todo no qual estou inserido que norteia a minha vida!

Percebe, pois, que o conceito de morte, como tantos outros conceitos, não é tão claro quanto pensas? E mais ainda que é justamente essa imprecisão vocabular que origina as mais variadas mazelas do mundo? Brigamos pelo conceito de Deus, muitas vezes, porque usamos palavras diferentes para dizer a mesma coisa ou por não termos humildade suficiente para admitir que podemos estar errados em nossas acepções. E assim o fazemos com tantos outros conceitos abstratos os quais tomamos como concretos a partir de nossos próprios conceitos. Talvez eu de fato me matasse, se soubesse tanto quanto o senhor! Se tivesse tanta certeza de tudo!

light

E um silêncio estarrecedor se fez. O paciente deixara de falar porque o médico, que antes se presumia sabedor de praticamente todas as coisas, em face dos anos de estudo, não parava de soluçar, ante a percepção de que não se alcança sabedoria se antes não se reconhece ignorante. Talvez estivesse tendo algum tipo de ideação suicida![1]

– Pois bem!

Um segundo componente da junta tomou a frente do procedimento, enquanto rabiscava algo no relatório:

– Sabe como é, a gente tenta facilitar, dar aquele jeitinho… afinal, tudo é realmente muito complexo. Mas é exatamente para essas situações que nos preparamos durante tanto tempo. Desde a fim da idade média, na verdade.

Aqui não é a aula de filosofia. É a Junta Médica, do Departamento de Pessoal, da Secretaria de Administração. Ou seja, uma pequena abstração de uma instituição muito maior, o Estado Moderno! O nirvana das organizações burocráticas! Ele foi minuciosamente planejado para manter tudo perfeitamente sob controle, o governo, o povo, o trabalhador, o empresário, a polícia, a milícia, eu e você, tudo! E sabe como ele faz isso?

Atônito, mas curioso, respondeu: – Nem imagino!

Levantou-se e foi até um armário cinza de metal do outro lado da sala, deu um solavanco na porta, abriu-a e perpassou os dedos por alguns livros. Voltou com um exemplar tão volumoso como uma Bíblia, e talvez tão velho e gasto quanto uma original, se é que existem.

– Pois bem, aqui temos com certeza uma resposta clara e precisa para sua dúvida.

Tão calmamente como se não tivesse aflições na vida, abriu o grande livro.

– Sumário. Humm… Capítulo 7… Administração de pessoas… Junta médica… patologias funcionais… patologias psicológicas, AQUI!

Exclamou com tanto euforia que rasgou o silêncio das velhas páginas folheadas.

– Ideações suicidas: ato de idear, imaginar, fantasiar, planejar ou projetar a cessação completa da vida, da existência; desejar a morte.

– Isso não explica nada, Doutor!

– Acalme-se, ainda não acabou.

E prosseguiu:

– Considera-se para estes fins as seguintes ideações: tomar fármacos em grandes quantidades; tomar venenos em grandes quantidades; pular de edificações quaisquer desde que tenha mais de 15 metros de altura; atirar contra si mesmo mirando em qualquer parte da cabeça; enforcar-se com cordas, lençóis, cintos e afins; tomar banho de banheira junto com a torradeira; cortar os pulsos e depois postar nas redes… Não, não! Essa foi revogada pela NO 2.515 de 15-03-2015. Uma pena, essa facilitava meu trabalho.

Um pouco decepcionado, prosseguiu:

– A lista é um pouco extensa, acho que avançaríamos mais rapidamente se você já fosse respondendo sim ou não para cada item. O que acha?

[1]  O texto original terminava aqui. O que se segue foi uma contribuição tão generosa quanto feliz de Marcos Freitas, a quem agradecemos profundamente!

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