Prelúdio de um suicídio

julietaE eu que pensava que da morte nada se alcança, ao leito nefasto de minha amada morta, morta amada, vejo-me louco a rogar pelo conhecimento daquilo que sempre desprezei.

As horas me consomem a incolumidade mental e já não se separa a fantasia do real.

Tamanha dor que de tão tamanha chega a anestesiar-me os sentidos e a, por um momento, breve que seja, levar-me ao esquecimento de que há vida, haja vista a presença sublime da morte a preencher todos os cantos de mim.

E o meu ceticismo, sempre tão presente, agora parece inexistente.

Talvez o seja assim também aos crentes nesses momentos em que o chão se esvai.

Certezas? Quem é capaz de tê-las se nas horas em que os maus agouros reais se tornam é que se evidenciam as fragilidades dos alicerces sobre os quais as construímos?

Pra mim, outrora ateu (quem sabe ainda… não sei dizê-lo) tal-vez não passe essa inconstância de desespero e da vontade de ter comigo a esperança de um dia revê-la.

Porém, reflito agora, também a quem crê deve de ser o deses-pero que assola, porquanto assentado no medo do “nunca mais”.

Nunca mais ver ou tocar ou sentir ou falar…

Eu juro que, se eu pudesse, me contentaria somente em contemplá-la viva, a exalar sua beleza altiva.

Ainda que não pudesse beijá-la ou sentir em minhas mãos o sabor doce de sua pele, ainda assim, eu seria outra vez feliz só por respirar o mesmo ar aspirado por ela.

Mas nada resta, além da negação do passado, do medo do fu-turo e da raiva insana do que existe agora.

Já não me recordava da última lágrima a percorrer minha tez. Agora, contudo, pareço ter perdido o domínio sobre essas emoções a tanto contidas (será que um dia as dominei de fato?).

Haverá algo mais? Algo além?

A dúvida novamente tenta me fazer crer que há esperança.

E se houver? Hei de revê-la? Hei de encontrá-la? Havemos de voltar aqui? E se voltarmos? Valeria a pena viver de novo a dor do eterno retorno?

Nenhuma conjectura basta, por mais que eu queira me aferrar a uma esperança incerta. Meus devaneios não são capazes de esclarecer o que em verdade ocorre.

Nem toda ciência, nem toda fé, podem me trazer a certeza que agora quero e que por muito tempo julguei possuir.

Não há qualquer alternativa. Nem a dor, nem a incerteza me permitem escolher a vida. E que sobrevida miserável eu haveria de ter sem aquela que há tanto dá sentido a essa existência insuportável?

Nada a perder! Se o além-mundo realmente existe, estou a pôr-me em direção àquilo que tanto almejo. Se, ao contrário, nada me aguarda, não haverá mais dor, senão aquela do punhal prestes a atravessar meu peito.

3 comentários sobre “Prelúdio de um suicídio

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