O bueiro (ou ativismo de sofá) 

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Perto de sua casa havia um bueiro. Que raiva tinha daquele bueiro! Frequentemente entupido, ao fitá-lo, tinha-o como a representação do que era feito com seus impostos e sentia seu esforço para maximizar sua riqueza, em parte, escoando pelo ralo.

Sua raiva era tamanha que frequentemente pensava estar sofrendo um infarto.

– Matilda, Matilda! Socorro! Estou morrendo, Matilda!

E lá corria Matilda, com um copo de água e uma pílula de papel do Frei Galvão, pra acalmar o homem.

Com certa constância, Matilda tentava entretê-lo na hora do Jornal Nacional, para que não desse qualquer chilique, em virtude da corrupção do Congresso ou dos desmandos que ele pensava serem as resoluções presidenciais.

Aos domingos, ele ia ao botequim da esquina. Matilda agradecia por, ao menos um dia, não ser ela a ter de aguentar as críticas à política, ao governo e até ao síndico do condomínio. Ela já sabia onde as conversas iriam parar. Era sempre a mesma coisa!

– É um absurdo, Zé! O que fazem com o nosso dinheiro! Até aquele síndico é ladrão! Nesse país só tem ladrão! Aposto que aquele cara que é presidente da Associação de Pais e Mestres também tá desviando dinheiro. É só o que fazem. Roubam e roubam e roubam, enquanto a gente trabalha e trabalha e trabalha.

– Desce outra gelada aí, Seu Geraldo!

E tudo começava novamente à segunda-feira. Já de manhã, saia ao trabalho, olhava o bueiro, reclamava do salário, das contas a pagar e dos impostos. À noite, Matilda tentava entretê-lo na hora do jornal, normalmente sem sucesso, e vez ou outra ele tomava um comprimido do Frei Galvão, por estar tendo mais um ataque de raiva. Raiva desinformada, raiva midiática, oriunda de seu ativismo de sofá.

Naquele sábado, às 9h, em frente à portaria principal, dar-se-ia a reunião mensal de condomínio, de que nunca participava. Como também era usual, Matilda acordou cedo, tomou banho, arrumou o café. Todavia, ela houvera decidido fazer algo diferente, acordou-o e o convidou a comparecer à reunião a que nunca iam.

– Mas que ideia absurda é essa, mulher? Vir me acordar a essa hora em pleno sábado para essa reunião chata? Tem mais o que fazer não é?

– Sabe o que é, Tião? Eu queria ver a prestação de contas do síndico. Eu não acho que o Seu Felício rouba não, igual você vive dizendo aos quatro cantos. Eu tenho sentido até vergonha de encontrá-lo por aí, em razão das coisas que você anda dizendo. Achei que seria uma boa a gente ir lá e conferir como é que o homem anda gastando nosso dinheiro.

– Pois vá você sozinha! Eu mesmo é que não vou! Ora…

Matilda não era lá de fazer nada sozinha, mas estava de veras encafifada com a história de o Seu Felício ser ladrão. Enquanto o papo do Tião se referia aos deputados e ao presidente, à corrupção e aos desvios de verba, enfim, a essa coisa toda de política de que ela não entende, tudo bem. Mas Tião estava falando por aí que Seu Felício, vizinho de tanto tempo, estava roubando o dinheiro do condomínio.

Ah! Disso ela entendia, do condomínio. Vivia ali quietinha, coitada! Quase nem opinava sobre nada, mas percebia quando as flores do jardim estavam bem cuidadas, viu quando individualizaram o sistema de hidrômetros, gostou quando fizeram a hortinha comunitária, da qual ajudava a cuidar, e empreendeu esforços para se adaptar ao novo sistema de coleta seletiva.

Na reunião do condomínio, ouviu Seu Felício informando os poucos presentes sobre o que fora feito de cada centavo pago a título de taxa condominial e sobre as melhorias implementadas em sua gestão.

Além disso, seu Felício pedira a todos os participantes para se manifestarem quanto ao que julgavam pertinente mudar, em que entendiam necessário investir daqui pra frente e sobre inúmeras outras pautas. Naquela ocasião, começou a perceber que sempre havia votações para decidir o que seria melhor para todos os que ali viviam, e que Seu Felício não fazia nada sozinho.

No finzinho da assembleia, Seu Felício a interpelou:

– Dona Matilda! Que bom que a Senhora veio! Seu marido não quis vir também não? É tão importante a presença de vocês!

– Sabe o que é, Seu Felício, ele trabalha demais. Tá tão cansado o coitado!

– Entendo. Toma um cafezinho com bolo! Minha esposa é quem fez. Delícia de Minas. Custou nada pro condomínio, não. Cortesia da casa!

– Hum! Delícia mesmo! Quero a receita.

– Pode deixar. A propósito, estamos com um problema com o bueiro aí ao lado. A prefeitura constantemente tem vindo desentupi-lo, porém, como as pessoas continuam jogando lixo nas ruas, ele volta a entupir. A prefeitura está montando um grupo de trabalho para conscientização acerca da importância de dar destinação adequada aos resíduos sólidos. Não gostaria de participar? Eu vejo que a senhora fica tanto tempo sozinha… minha esposa e minha filha também vão!

– Por que não, né? Acho que o Tião não vai se importar.

Ao voltar pra casa, Tião já havia tomado o café e já estava em frente à TV.

– Tião, a reunião foi tão interessante! Tivemos prestação de contas e… e o Seu Felício não é ladrão não! Teve votação, decidimos o que fazer com o dinheiro e… e o bueiro! Sabe o bueiro, Tião?

– Que bueiro, mulher?! Dá licença que eu tô assistindo meu programa de esporte. Quero lá saber de bueiro nada!

Matilda respirou fundo, deixou Tião quietinho vendo as notícias do futebol, mas não permitiu que a grosseria a desanimasse.

Na semana, foi à reunião do GT Resíduos Sólidos. O grupo foi recebido pela Secretária de Limpeza Urbana. E como Matilda se sentira importante. Uma simples dona de casa ser recebida por uma Secretária da prefeitura, imagina a honra! Ela sorria de ponta-a-ponta.

Prestou atenção ao projeto. Anotou cada passo da explanação. Fez muitas perguntas, pois queria saber exatamente qual seria sua missão na empreitada. Que legal ter uma missão! Estava tão motivada! Sentia-se útil, sentia-se parte. Ela, que sempre ouvira de Tião que é o dinheiro dele que torna possível tanta coisa (escola, hospital, bueiro…) e que é tão mal-usado o dinheiro dele, tinha pela primeira vez a oportunidade de contribuir.

Contribuir com a sociedade, com quem pensava não colaborar, já que não tinha um trabalho remunerado e, assim sendo, em sua cabeça, não pagava impostos (ela também não entendia nada sobre arrecadação fiscal); mas, principalmente, oportunidade de contribuir com Tião, já que ativamente poderia fazer com que o dinheiro dele fosse melhor utilizado.

E Matilda saiu em campanha.

Passeando num sábado à tarde:

– Não joga lixo no chão, Tião! Vai entupir o bueiro!

– Como?

– É, vai entupir o bueiro! Você já viu quantas vezes a prefeitura tem de vir aqui desentupir esse bueiro? Já pensou em quanto é preciso gastar a cada vez que o bueiro entope? É o motorista do caminhão, o funcionário da zeladoria, a gasolina… isso quando não tem que trocar o cano. Para de jogar lixo no chão!

Tião ficou em silêncio, franzindo a testa. Nunca houvera lhe ocorrido pensar em nenhuma daquelas questões. Nunca nem mesmo tinha se dado conta de que contribuía para um problema de que tanto reclamava. Mas o que lhe assustou mesmo foi ver sua mulher, que não sabe muito sobre quase nada, lhe repreender daquela maneira.

Naquele dia, passou a olhar Matilda de um jeito diferente. Queria saber mais sobre a pessoa com quem estava casado há anos e que, até aquele dia, nunca ousara questionar qualquer um de seus posicionamentos, mas teve medo de perguntar.

À noite, quando ele abriu a boca pra falar mal da presidência, Matilda já cansada soltou:

– Olha, esse problema da presidência é muito complicado pra eu resolver. Não vejo como posso contribuir para que essa situação melhore, mas sei que precisamos de muita ajuda aqui no condomínio e lá na prefeitura, para que o nosso bairro se torne um lugar melhor pra gente viver. Talvez, se em vez de ficar aí sentado no sofá, reclamando do que a gente não pode mudar, você levantar e for comigo à prestação de contas do pessoal lá da prefeitura, a gente consiga dar uma destinação melhor ao seu dinheiro. Eu sei que a escola do Pedrinho vai passar por reforma, porque a gente foi lá reclamar no orçamento participativo. E também sei que vai chegar mais remédio no postinho de saúde, mas eu realmente não sei o que fazer com essa tal de Petrobrás, nem com essa coisa de propina. Então, por favor, pare de reclamar sobre isso pra mim!

Tião emudeceu de vez. Acometeu-lhe um súbito e inédito pensamento que lhe impunha cogitar que seu ativismo de sofá não contribuía em nada para coisa alguma.

A história de Mary e Junk

 

Dizem que todo mundo tem medo do escuro, de altura, da pobreza, da velhice ou da solidão.

A solidão talvez fosse sua maior preocupação. Encontrar um grande amor para ser feliz para sempre, para passar o resto da vida. E ela ia, de abraço em abraço, esperando encontrar em qualquer esquina o seu final feliz.

Possivelmente era desse medo que derivavam seus maiores defeitos, a carência absurda de afeto, a necessidade de chamar a atenção e o pânico de não ser a mais bela e de não ser a ela destinado o príncipe encantado.

Rejeição, tamanha dor! E também alimento para o medo primordial. A cada nova, aumentavam o desespero e a ânsia de encontrar.

Critérios? Nenhum! Embora às vezes rejeitasse alguns pretendentes instintivamente.

Ricos, pobres, honestos, transgressores, bonitos, feios, homens, mulheres… Não admitia a possibilidade de deixar passar a chance de encontrar sua alma-gêmea. E se passassem despercebidos e desapercebidos? Não podia permitir.

Sem perceber, cavava sua própria cova. Quanto maior o fracasso amoroso, menos se valorizava e mais fundo descia em seu próprio poço. Permitia-se deitar com uns e outros em troca de algumas migalhas de autoestima, que era justamente o que adquiria ao ouvir um “como você é linda”! Não compreendia que, ao fim, sua autoestima estava ainda mais fragmentada que inicialmente.

Não sabia ouvir a si mesma. Sua alma gritava: “socorro! estou sendo violentada”! E ela entendia: “depressa! Corra logo para os braços de outro alguém que te possa dar um afago qualquer”.

Constantemente se sujeitava a xingamentos diversos, mas a assustou o primeiro tapa, o primeiro chute, o primeiro soco.

Estranho pensar que ainda assim decidiu ficar. Talvez o tenha feito por haver sido este, em tempos, o primeiro a não a escorraçar, depois da primeira noite, como a um cão sarnento.

De certa forma, parecia um pequeno preço a pagar por aquilo que ela tanto queria: alguém. E, de mais a mais, não se considerava merecedora de algo melhor. Já não tinha amigos e a família houvera se afastado a tempos, para não ver tamanha tragédia. Ele era agora tudo. Tudo o que ela tinha.

E para ele? Era conveniente e só. Ela arrumava a casa, fazia a janta e dava uma boa foda. Pra completar, suportava quieta seus surtos de violência, normalmente decorrentes do uso abusivo de álcool.

E era isso o que esperava para até que a morte os separasse.

Todavia, por coincidência, destino, milagre, dharma ou trânsito astrológico favorável – vá saber! – uma vizinha precisava de uma mãozinha em seu restaurante e lhe ofereceu um trabalho.

A queria como hostess, uma espécie de recepcionista mais embelezada. Havia pensado nela justamente pela beleza que ela própria não enxergava.

Ele não se opôs. Não deu importância. Minimamente, a ideia até o agradou, já que seus gastos se reduziriam. Com sua benção, ela foi adiante.

Recebeu da nova patroa um vestido alinhado, muito distinto dos justos e curtos que costumava usar. Também lhe foi sugerido carregar menos na maquiagem. Efetivamente pronta, mal se reconhecia no espelho.

Muitos clientes, muitos olhares, muitos sorrisos, os quais retribuía por mera obrigação contratual, enquanto tentava olvidar a parte de si que se sentia feliz com os gracejos respeitosos (algo que lhe era inteiramente novo, porquanto distintos das péssimas cantadas outrora ouvidas).

Acostumava-se cada vez mais à nova imagem e, um dia de cada vez, sua autoestima se refazia. Com as inúmeras gorjetas, reformou o guarda-roupas. E foi comprando sapatos que teve sua epifania, ao ouvir de dentro de si:

Lembra aquele sapato vermelho? Aquele com o qual você mal conseguia andar? Lembra quando você veio aqui experimentar? Eu lembro! Ah! É tão lindo! Você pensou. Só me machuca um pouquinho!

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E depois de 24 horas, aquele pouquinho a fez ficar descalça e fez aquele sapato lindo, perfeito, quase um Laboutin ficar uma eternidade no armário até que você tivesse coragem de doá-lo a alguém.

E daquela sandália preta você se lembra? Ah! Dessa eu tenho certeza que você se lembra! Você a comprou numa promoção. Preço mais que justo, encaixe perfeito, que felicidade! Só  mulheres podem entender!

Apenas ao chegar em casa é que você notou o lacinho torto e o defeitinho no couro. Um defeitinho aceitável, né? Não a impedia de andar e nem a obrigava a ficar descalça.

E que relação duradoura! Juntas até hoje e até que a ‘morte’ (dela, espera-se) as separe!

Com relacionamentos, é a mesma coisa, com a ressalva de que não há nenhum sapato perfeito na vitrine, todos têm defeitos, porém alguns não incomodam, alguns lhe causam calos e outros, literalmente, a impedem de andar!

Sabedoria é reconhecer quando um “sapato” lhe causa tamanha dor que se mostra mais inteligente andar descalça do que ostentar sua beleza.

Adeus, Junk!

Travessia

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A vida era tranquila, embora um pouco solitária. Não era capaz de ver ou de entender o que as pessoas diziam, mas o tom suave da voz de sua mãe e as palavras delicadas de seu pai lhe soavam como uma doce melodia aos ouvidos e lhe geravam sentimentos de conforto e serenidade.

Reconhecia sentir falta de algo novo e, com o passar do tempo, veio a entender que aquele já não era o seu lugar. Isso é comum na vida! O que é apropriado para um momento não o é para o próximo. Talvez seja essa necessidade de mudança, ao mesmo tempo, uma das coisas mais prementes e difíceis de aceitar. É que nos acostumamos a estar onde estamos e, ainda que não gostemos, que o lugar já não nos caiba, que estejamos a sofrer, o desconhecido parece sempre assustador.

E era assim que se sentia, assustado e compelido a deixar a vida a qual tanto presava. Não tinha nenhuma crença a respeito de como seria uma “outra vida”, nem mesmo acerca da existência de tal coisa.

Sua única certeza era a de que realmente não queria deixar a vida que tinha. A vida na qual era suprido de tudo o que necessitava e desejava. Na qual era único e especial e tinha todo o carinho, o afeto e o aconchego de que poderia precisar. Não lhe importava o fato de que a vida tem de seguir seu fluxo, de que não se pode impedir o tempo de passar. Apenas se recusava a aceitar ter de seguir adiante, conquanto soubesse necessário.

Ele sequer entendia – sequer queria entender – que os seres estão submetidos à lei da evolução e que dela não se pode escapar. Em si, só desejo, puro desejo de que tudo estagnasse e de que pudesse apenas ficar ali, imóvel, num puro êxtase decorrente da vida plena que lhe fora dada.

Ainda hoje, é capaz de se lembrar do exato instante em que todo o seu corpo passou a ser comprimido por uma força estranha e desconhecida, que o obrigava a entrar numa espécie de corredor apertado e incômodo, do qual alguém o expulsava com fortes e sucessivos empurrões.

Antes de se deixar tomar por completo, vislumbrou uma forte luz que o impediu de ver qualquer coisa além dela. Sentiu pânico e frio. Muitas pessoas relatam haver vivido, em experiências de quase-morte, sentimentos semelhantes. E a morte era exatamente o que cria estar acontecendo. Estava deixando de existir, pensava. Estava perdendo a conexão com o Todo do qual fazia parte.

Chorou. Com todas as forças que possuía. Chorou o desespero do último segundo. Chorou a dor de o Todo a que pertencia parecer cada vez mais distante. Chorou o frio, o abandono e o medo e, quando não podia, não tinha mais forças pra chorar, ouviu diversas vozes que não podia identificar.

Não conseguia entender ao certo o que estava acontecendo, mas algo, de repente, passou a aquecê-lo. Do medo à dúvida. O que era aquilo? Que sons eram aqueles? Que luzes eram aquelas?

Pouco a pouco, começou a sentir um cheiro que lhe era familiar. Era como se o Todo, do qual tanto temeu se apartar, estivesse aos poucos se reaproximando. Ao sentir seu toque e ao sugar seu seio, soube que, fosse o que fosse que estivesse a acontecer, estava protegido e poderia contar com a força que o geriu ao longo daquela nova, inebriante e eloquente vida.

A junta médica



– Tem ideações suicidas?

– Como assim ideações suicidas?

– Desejo de morrer. Você tem?

– Defina morte, por favor, Doutor.

Já ficando impaciente diante de tão despropositada pergunta, respondeu:

– Ora, você sabe o que é morte! Todo mundo sabe o que é morte! Basta olhar os jornais, os cemitérios, as ruas, as escolas, nossas famílias… A morte sempre está à espreita! Agora vamos ao que interessa para que possamos fechar seu relatório. Você tem ideações suicidas?

– O senhor vai me desculpar, Doutor, mas ainda não ficou claro para mim. Continuo não sabendo o que é morte. Quando eu era pequeno, minha mãe dizia que, quando eu morresse, iria para o céu ou para o inferno, onde permaneceria para sempre, conforme as ações que tivesse realizado em vida.

E prosseguiu:

– É claro que, quando criança, eu queria ir para o céu. Observava cada pequena ação, com medo de que fossem pesar contra mim no dia do juízo final. 

Infelizmente, minha mãe não sabia se havia animais no céu e isso me causava grande preocupação. Seria triste se não tivesse!

Anos mais tarde, uma tia minha virou espírita e me disse que não existe isso de céu e inferno. O que de fato existiria, seria um retorno quase eterno, a fim de que nos aperfeiçoássemos. A isso, ela chamava reencarnação, cujo objetivo seria a evolução dos seres. Nessa teoria, incluíam-se os animais, o que, para mim, foi uma novidade feliz.

 Quando cheguei à faculdade, entretanto, me disseram que tudo isso era uma grande mentira. Na verdade, morríamos e fim! Simples dessa maneira. Nascíamos, reproduzíamos e morríamos e bem assim ocorria com os animais.pensador

Pra ser honesto, a versão que mais me agradou foi a de um amigo, também da faculdade. Ele estava ansiosamente aguardando a chegada de 70 virgens para depois que morresse. Não que eu goste de virgens ou dê importância à virgindade, mas, já pensou? Seria maravilhoso ter 70 mulheres só pra mim! Nesse contexto, sequer me parece absurdo ter ideação suicida!

Mas o fato é, Doutor, que nenhum desses me apresentou provas suficientemente hábeis do que seja verdadeiramente a morte.  Desse modo, partindo do pressuposto de que nem ao menos sei o que seja, não posso desejar senão aquilo que penso ser.

Penso, primeiro, que, nem que seja em nível atômico, permanecemos. Pois nada se perde, nada se cria e tudo se transforma. Isso põe, de plano, fim à ideia de finitude.

Em segundo lugar, vejo a morte como um descanso das angústias dessa vida. A paz perpétua, a ausência de dúvidas, o consolo de “Deus”, do Universo, ou do nome que se queira dar a esse Todo magnifico e incompreensível em sua plenitude.

Não olvido, porém, de que minha crença não é melhor e nem mais robusta que as outras, o que implica o reconhecimento de que a morte pode não corresponder a nada daquilo em que acredito.

Seria temerário de minha parte, atender, pois, aos meus anseios de paz absoluta, correndo o risco de ir parar no locus horrendus. Não concorda, Ilustríssimo?

Consequentemente, prudente que tento ser, busco olhar objetivamente para o meu desejo de morrer e vê-lo como sendo desejo de paz, de libertação e de amor. E como busco nortear-me também pela coerência, olho para dentro de mim e procuro encontrar aquilo que me trouxe isso em vida.

 Acho que cada um deve ter algo particular que lhe traga essa sensação de plenitude. A mim o que a trouxe foi um senso de pertencimento a algo maior do que eu, que anima todas as coisas, acerca do qual pouco ou nada sei, porém que se revela na força do amor e da compaixão. Algo que posso encontrar no mais profundo e silencioso espaço íntimo.

É assim que eu sempre leio o meu desejo de morte, como sendo sede de completude. E é essa busca de conexão com o Todo no qual estou inserido que norteia a minha vida!

Percebe, pois, que o conceito de morte, como tantos outros conceitos, não é tão claro quanto pensas? E mais ainda que é justamente essa imprecisão vocabular que origina as mais variadas mazelas do mundo? Brigamos pelo conceito de Deus, muitas vezes, porque usamos palavras diferentes para dizer a mesma coisa ou por não termos humildade suficiente para admitir que podemos estar errados em nossas acepções. E assim o fazemos com tantos outros conceitos abstratos os quais tomamos como concretos a partir de nossos próprios conceitos. Talvez eu de fato me matasse, se soubesse tanto quanto o senhor! Se tivesse tanta certeza de tudo!

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E um silêncio estarrecedor se fez. O paciente deixara de falar porque o médico, que antes se presumia sabedor de praticamente todas as coisas, em face dos anos de estudo, não parava de soluçar, ante a percepção de que não se alcança sabedoria se antes não se reconhece ignorante. Talvez estivesse tendo algum tipo de ideação suicida![1]

– Pois bem!

Um segundo componente da junta tomou a frente do procedimento, enquanto rabiscava algo no relatório:

– Sabe como é, a gente tenta facilitar, dar aquele jeitinho… afinal, tudo é realmente muito complexo. Mas é exatamente para essas situações que nos preparamos durante tanto tempo. Desde a fim da idade média, na verdade.

Aqui não é a aula de filosofia. É a Junta Médica, do Departamento de Pessoal, da Secretaria de Administração. Ou seja, uma pequena abstração de uma instituição muito maior, o Estado Moderno! O nirvana das organizações burocráticas! Ele foi minuciosamente planejado para manter tudo perfeitamente sob controle, o governo, o povo, o trabalhador, o empresário, a polícia, a milícia, eu e você, tudo! E sabe como ele faz isso?

Atônito, mas curioso, respondeu: – Nem imagino!

Levantou-se e foi até um armário cinza de metal do outro lado da sala, deu um solavanco na porta, abriu-a e perpassou os dedos por alguns livros. Voltou com um exemplar tão volumoso como uma Bíblia, e talvez tão velho e gasto quanto uma original, se é que existem.

– Pois bem, aqui temos com certeza uma resposta clara e precisa para sua dúvida.

Tão calmamente como se não tivesse aflições na vida, abriu o grande livro.

– Sumário. Humm… Capítulo 7… Administração de pessoas… Junta médica… patologias funcionais… patologias psicológicas, AQUI!

Exclamou com tanto euforia que rasgou o silêncio das velhas páginas folheadas.

– Ideações suicidas: ato de idear, imaginar, fantasiar, planejar ou projetar a cessação completa da vida, da existência; desejar a morte.

– Isso não explica nada, Doutor!

– Acalme-se, ainda não acabou.

E prosseguiu:

– Considera-se para estes fins as seguintes ideações: tomar fármacos em grandes quantidades; tomar venenos em grandes quantidades; pular de edificações quaisquer desde que tenha mais de 15 metros de altura; atirar contra si mesmo mirando em qualquer parte da cabeça; enforcar-se com cordas, lençóis, cintos e afins; tomar banho de banheira junto com a torradeira; cortar os pulsos e depois postar nas redes… Não, não! Essa foi revogada pela NO 2.515 de 15-03-2015. Uma pena, essa facilitava meu trabalho.

Um pouco decepcionado, prosseguiu:

– A lista é um pouco extensa, acho que avançaríamos mais rapidamente se você já fosse respondendo sim ou não para cada item. O que acha?

[1]  O texto original terminava aqui. O que se segue foi uma contribuição tão generosa quanto feliz de Marcos Freitas, a quem agradecemos profundamente!

Prelúdio de um suicídio

julietaE eu que pensava que da morte nada se alcança, ao leito nefasto de minha amada morta, morta amada, vejo-me louco a rogar pelo conhecimento daquilo que sempre desprezei.

As horas me consomem a incolumidade mental e já não se separa a fantasia do real.

Tamanha dor que de tão tamanha chega a anestesiar-me os sentidos e a, por um momento, breve que seja, levar-me ao esquecimento de que há vida, haja vista a presença sublime da morte a preencher todos os cantos de mim.

E o meu ceticismo, sempre tão presente, agora parece inexistente.

Talvez o seja assim também aos crentes nesses momentos em que o chão se esvai.

Certezas? Quem é capaz de tê-las se nas horas em que os maus agouros reais se tornam é que se evidenciam as fragilidades dos alicerces sobre os quais as construímos?

Pra mim, outrora ateu (quem sabe ainda… não sei dizê-lo) tal-vez não passe essa inconstância de desespero e da vontade de ter comigo a esperança de um dia revê-la.

Porém, reflito agora, também a quem crê deve de ser o deses-pero que assola, porquanto assentado no medo do “nunca mais”.

Nunca mais ver ou tocar ou sentir ou falar…

Eu juro que, se eu pudesse, me contentaria somente em contemplá-la viva, a exalar sua beleza altiva.

Ainda que não pudesse beijá-la ou sentir em minhas mãos o sabor doce de sua pele, ainda assim, eu seria outra vez feliz só por respirar o mesmo ar aspirado por ela.

Mas nada resta, além da negação do passado, do medo do fu-turo e da raiva insana do que existe agora.

Já não me recordava da última lágrima a percorrer minha tez. Agora, contudo, pareço ter perdido o domínio sobre essas emoções a tanto contidas (será que um dia as dominei de fato?).

Haverá algo mais? Algo além?

A dúvida novamente tenta me fazer crer que há esperança.

E se houver? Hei de revê-la? Hei de encontrá-la? Havemos de voltar aqui? E se voltarmos? Valeria a pena viver de novo a dor do eterno retorno?

Nenhuma conjectura basta, por mais que eu queira me aferrar a uma esperança incerta. Meus devaneios não são capazes de esclarecer o que em verdade ocorre.

Nem toda ciência, nem toda fé, podem me trazer a certeza que agora quero e que por muito tempo julguei possuir.

Não há qualquer alternativa. Nem a dor, nem a incerteza me permitem escolher a vida. E que sobrevida miserável eu haveria de ter sem aquela que há tanto dá sentido a essa existência insuportável?

Nada a perder! Se o além-mundo realmente existe, estou a pôr-me em direção àquilo que tanto almejo. Se, ao contrário, nada me aguarda, não haverá mais dor, senão aquela do punhal prestes a atravessar meu peito.